Cidade não é problema. Cidade é solução

maio 11, 2008

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Este fim de semana vi mais um vídeo muito interessante no TED. O vídeo em questão foi uma apresentação do Jaime Lerner, sobre como transformar e melhorar cidades. A frase título do post é de autoria dele.

Eu já conhecia o trabalho que o Jaime Lerner fez em Curitiba, mas sem tantos detalhes. Assistir à sua apresentação falando das idéias por trás dessa reestruturação da cidade foi muito interessante. Eu já falei anteriormente que estou muito desanimado com o Rio de Janeiro, e desejo morar em Curitiba no futuro de médio prazo.

Lerner falou de algumas coisas muito importantes na organização das cidades atualmente. A necessidade de um transporte público de qualidade é gritante. Curitiba conta com uma rede de transportes muito eficiente, com ônibus do tipo “sanfona”, que comportam mais de 200 passageiros. Além disso os pontos de ônibus foram projetados para se encaixar com os ônibus, fazendo com que os pontos sejam semelhantes a paradas de metrô. Isto certamente contribuiu para um trânsito muito mais eficiente do que temos no Rio de Janeiro e em São Paulo, e facilita muito a vida das pessoas. Além disso, reduz bastante a poluição, pela diminuição de carros em circulação.

Outra coisa interessante que ele mencionou foi o sacrifício que muitas pessoas têm que fazer nas grandes cidades por morar muito longe do local onde trabalham ou estudam. Isto toma muito tempo diariamente das pessoas e somando-se isso ao cansaço, não sobra tempo para muita coisa. Aqui no Rio conheço algumas pessoas que fazem verdadeiras maratonas diárias. O Aspira (estagiário da minha equipe) passa cerca de 6 horas por dia se deslocando, pois todos os dias vai para a faculdade, estágio e então para casa, e todos os trechos são longos. Isto é o tipo da aberração que ocorre bastante em cidades grandes com trânsito complicado, e certamente prejudica bastante as pessoas.

Para finalizar, ele comentou que Curitiba é a cidade onde mais se faz coleta seletiva de lixo no mundo, com mais de 70% do lixo sendo corretamente separado. Como ele conseguiu isso? Focando bastante atenção da campanha nas crianças, que logo aprendiam este novo processo e então educavam os seus pais. Muito inteligente e muito educativo.

Pouco depois de assistir à apresentação, fui descobrir que a idéia do “Metrô na superfície” no Rio surgiu em uma consultoria que ele prestou à cidade/estado em 2006. Sem dúvida é uma boa idéia e tem ajudado no controle do tráfego intenso que temos.

Os paranaenses tiveram a felicidade de contar com o Jaime Lerner como prefeito de Curitiba por 3 vezes e como governador do Paraná por 2 vezes. Sua contribuição para a evolução do estado foi enorme, e certamente a prosperidade oriunda do seu governo é responsável por fazer de Curitiba a cidade onde pretendo morar.

Infelizmente isso me traz também à cabeça uma lembrança triste. A incrível sucessão de administrações corruptas e incompetentes que temos no Rio nas últimas 2 décadas transformou nossa cidade querida em um lugar caótico. Um palco de batalhas sangrentas do crime contra a polícia. Um lugar onde a educação está em uma situação péssima (enquanto Curitiba é a melhor cidade do Brasil em educação). Um lugar onde a dengue está atacando com cada vez mais força. Onde já foi alertado que o mesmo mosquito trará também a febre amarela. Onde o trânsito está caótico e o custo imobiliário está absurdo.

Vamos torcer para que no futuro um milagre nos envie alguém como o Jaime Lerner para salvar o Rio de Janeiro. Enquanto isso eu continuo meus planos para me mudar para Curitiba, por onde ele já passou.

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…e conhecer Português também!

janeiro 23, 2008

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Claro que para trabalhar com software é fundamental saber se comunicar em Inglês. Mas para trabalhar com qualquer coisa no Brasil é bom você falar Português corretamente também!Desde a época da faculdade eu me surpreendo com a quantidade de pessoas bastante qualificadas e inteligentes que são ruins em Português. Talvez eu esteja dando importância excessiva para isso, mas acho que não. Pode ser que boa parte das pessoas com as quais você trabalhe não ligue muito para isso, mas te garanto que muitas pessoas terão uma certa imagem negativa ao vê-lo cometer erros grosseiros de Português. Ah, e por favor.. falar Tupi é pior ainda! (“Mim fazer alguma coisa”)

Um exemplo interessante que acontecia comigo é que no meio da faculdade eu já sabia que não queria trabalhar com eletrônica, mas eu tive que cursar Eletrônica 1, 2, 3 e 4. Era muito chato fazer os trabalhos preparatórios e os relatórios das aulas práticas. Como quase ninguém gostava de fazer esses trabalhos, muitas vezes a gente revezava quem ia fazer o trabalho original e os outros iriam modificando e customizando as suas cópias do trabalho :). O interessante é que dependendo de quem estivesse fazendo o relatório (eu tenho alguns amigos que são muito inteligentes, mas escrevem mal), meu único trabalho era corrigir o Português e entregar. E o melhor, com certeza se o professor pegasse 2 relatórios e achasse que um era cópia do outro, provavelmente ele pensaria que o original era o bem escrito, então eu não teria problemas 😉

Brincadeiras à parte, você não precisa ser o professor Pasquale, mas tente ser cuidadoso ao se comunicar de forma escrita. Uma possibilidade é pedir para outra pessoa revisar rapidamente o que você está escrevendo. Observar a escrita de pessoas que escrevem bem também ajuda bastante. Aliás, isso mais uma vez reforça o ponto levantado pelo Guilherme, da importância da leitura.

De uma maneira geral, quem lê muitos livros também escreve bem. Como o processo de publicação de livros é bastante criterioso, dificilmente você lerá um livro com português ruim. O hábito de ler bastante refinará os seus conhecimentos da língua e melhorará também o seu vocabulário.

Se você é um bom profissional, com certeza não vai querer prejudicar a sua imagem por escrever mal. Tente ler mais e aos poucos ir melhorando sua forma de escrever, isso só te trará benefícios. E claro, se quiser expandir seus hábitos de leitura, eu estarei por aqui escrevendo com freqüência para te oferecer conteúdo! 🙂


Educação, aprendizado e ferramentas de raciocínio

dezembro 25, 2007

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Estou escrevendo este post motivado por recentes resultados de pesquisas educacionais que ano após ano colocam o Brasil nos últimos lugares em todos os aspectos avaliados do ensino.Claro que temos vários problemas graves em nossa educação, mas eu gostaria de destacar 2. O primeiro deles acredito que seja algo mais particular do Rio de Janeiro, mas talvez se aplique a outros estados também.

Aqui no Rio de Janeiro existe na educação pública um conceito totalmente maléfico e inexplicável, que é o da aprovação automática no primário. Não estou certo se fazem isto no ginásio também, mas mesmo que seja apenas no primário é algo estarrecedor. Com a aprovação automática, crianças que não sabem nem ler e escrever são aprovadas seguidamente, e às vezes chegam à quinta série do ensino fundamental totalmente analfabetas. Eu escutei na Band News um tempo atrás o caso de um garoto da quinta série totalmente analfabeto. Ele era capaz de reconhecer letras, mas não mais do que isso. Pediram para ele ler a frase escrita na bandeira nacional, e ele não saiu do “O”! Isto é algo que me revolta profundamente, mas que continua acontecendo com essa aprovação automática na qual não consigo ver nenhuma boa intenção por trás. Que bela maneira de se ter “Ordem e Progresso”!

Outro problema, este não restrito à educação pública, é o da educação focada no vestibular. Me parece que estes colégios e cursinhos que preparam para o vestibular elaboram receitas de aprovação que são iniciadas antes mesmo do ensino médio (antigo segundo grau). Não vejo problemas em tentar preparar os alunos da melhor forma possível para o vestibular, pois a competição é realmente acirrada e existem poucas vagas de qualidade para muitos candidatos. Entretanto, pelo que tenho lido e percebido, isto é feito muito mais na base da avalanche de informações e técnicas de memorização do que efetivamente aprendizado. Os alunos dos cursos pré-vestibular são submetidos a uma carga horária tão absurda que não sobra nem mesmo tempo para que pensem por si mesmos. Todo o tempo será gasto com apostilas que precisam ser entregues resolvidas (mesmo que copiadas) e com aulas e mais aulas durante a semana e no fim de semana.

O problema com isso é que memorizar é muito diferente de aprender. Embora isto possa ajudar na aprovação no vestibular, memorizar não vai te preparar da melhor forma para a vida. Muito melhor do que ensinar a LEMBRAR é ensinar a PENSAR. Lembrando você exercerá o mesmo papel de uma enciclopédia que cataloga fatos e dados. Pensando você utilizará fatos e dados previamente obtidos para chegar às suas próprias conclusões e opiniões. Você não estará lembrando das conclusões e opiniões que o avaliador do vestibular está esperando para dar as notas. Você será capaz de tirar as suas próprias conclusões, e como sabemos para cada situação podemos ter várias opiniões válidas.

Farei uma pequena ressalva. Eu tive a sorte de ter uma educação excepcional. Estudei da quinta série do ensino fundamental ao terceiro ano do ensino médio no Colégio Militar do Rio de Janeiro. Para ingressar no colégio tive que prestar concurso com outras 4500 crianças disputando 60 vagas. Lembro-me com todos os detalhes do dia no final de 1992 em que eu fui com meu avô ao Colégio Militar saber do resultado do concurso e ver que eu tinha sido o quarto colocado. Foi um dos dias mais felizes da minha vida 🙂 Após estudar no Colégio Militar, ingressei na Universidade Federal do Rio de Janeiro, aprovado também em quarto lugar no curso de Engenharia Eletrônica e de Computação. Meu colégio me educou tão bem que eu não precisei fazer nenhum cursinho pré-vestibular para ser aprovado na primeira tentativa para uma das melhores universidades do Brasil.

Após entrar na universidade achando que seria parecido com o nível de dificuldade que eu tinha no colégio, tive grandes surpresas. O curso de engenharia na UFRJ é muito muito rigoroso e exigente academicamente. Os alunos precisam se dedicar plenamente ao curso para obter bons resultados, e isto acaba elevando bastante o nível dos alunos. Tenho enorme satisfação atualmente por ter sido submetido a este grau de exigência, pois vejo o quanto isto colaborou com a minha formação.

Em comum no Colégio Militar e na UFRJ está o fato de em ambos eu ter sido muito mais estimulado a pensar e aprender de fato do que memorizar. Isto de forma alguma prejudicou meus resultados no vestibular, como mencionei. Sendo assim, deixo aqui a crítica a estes métodos agressivos de memorização que são utilizados em larga escala no Brasil. Ensinem os alunos a pensar, ou ficaremos cada vez mais para trás dos outros países em termos de educação. E não precisamos pensar muito para ver aonde uma péssima educação pode nos levar.

Um conceito que eu criei comigo mesmo no começo da faculdade e sobre o qual eu pensava bastante é o de “ferramentas de raciocínio”. Hoje em dia eu não utilizo boa parte dos conceitos de matemática, ciências, história e geografia que eu aprendi durante a minha educação. Nunca precisei fazer cálculos trigonométricos e nem calcular nenhuma integral de superfície trabalhando com software. Entretanto, tenho total convicção de que isto ajudou e muito a desenvolver meu raciocínio e fundamentou uma base de conhecimentos sobre a qual eu acrescentei tudo que vim a aprender posteriormente.

Uma diferença crucial entre memorizar e aprender de fato é que aprendendo você pode adquirir novas ferramentas de raciocínio. Quando você aprende realmente bem alguma coisa, você vai além do ponto de saber responder a perguntas simples sobre o assunto. Você chega ao ponto de conseguir pensar a partir do que aprendeu.

Um médico durante sua formação aprende inúmeras coisas, e certamente no ciclo básico de Medicina ele aprende diversos conceitos novos que serão fundamentais para um aprendizado posterior. Ele ganha ferramentas de raciocínio de anatomia, bioquímica, fisiologia, imunologia e muitas outras coisas. Após adquirir estas ferramentas de raciocínio e com o acúmulo de experiência, ele será capaz de analisar uma determinada patologia e com o uso de suas ferramentas de raciocínio, diagnosticar um problema que o paciente tem. Veja bem, ele não está lembrando que um paciente com aqueles sintomas tem tal doença. Embora a lembrança de casos passados possa ajudar muito em novos diagnósticos, os bons médicos irão avaliar cuidadosamente cada caso, e então raciocinar para diagnosticar cada caso novo que se apresenta.

Para consertar a nossa educação, precisamos urgentemente modificar o formato de nosso ensino. Em vez de ensinar a memorizar, ensinar a pensar, raciocinar. Em vez de oferecer dados e fatos para serem catalogados, oferecer ferramentas de raciocínio. Não sou expert em educação para saber como fazer isto em larga escala no Brasil, mas posso dizer que a minha educação me ofereceu isto, e tentarei oferecer o mesmo aos meus filhos quando os tiver. Podem nos tirar qualquer coisa material, mas nunca podem tirar de nós a capacidade de pensar!