Scrum Master x Líder Técnico: nova faceta de um fenômeno recorrente

Atenção, este blog foi migrado para: http://brunopereira.org

Essa semana eu troquei umas idéias com o Bairos sobre Scrum, e após acompanhar as discussões no post do Guilherme pensei ainda mais sobre o assunto deste post.

Eu já conheci inúmeros casos de profissionais que saíram da linha de desenvolvimento para assumir papéis gerenciais. Deixam de lidar diariamente com atividades técnicas para lidar com coisas mais ligadas à organização dos projetos, definição de estratégias, planejamento, etc. Em alguns casos as pessoas de fato desejavam esta mudança de atividades. Depois de desenvolver por alguns anos algumas realmente “enjoam” de atuar com desenvolvimento e preferem abraçar o caminho da gerência. Já em outros casos esta “escolha” na verdade não é um anseio autêntico do profissional, mas uma alternativa que ele inevitavelmente adota para poder continuar crescendo na carreira, ter mais responsabilidades, mais reconhecimento e mais grana.

Com a adoção do Scrum, freqüentemente o antigo líder técnico da equipe assume o papel de Scrum Master. Pela definição da metodologia a responsabilidade principal deste papel é a de eliminar impedimentos do time, e garantir que este tenha as melhores condições possíveis de trabalho para poder produzir bem. Isto acarreta numa mudança significativa para o líder técnico. Ele vai sair das “trincheiras” para ajudar o time a chegar da melhor forma possível ao final dos sprints. Seu contato com a arquitetura e desenvolvimento dos produtos inevitavelmente vai diminuir bastante, pois isto é responsabilidade do time.

O Scrum nos trouxe uma nova faceta para o fenômeno recorrente do profissional com alta capacidade técnica que muda seu perfil de atuação para atingir maiores objetivos de carreira e finanças. Sim, porque em todos os casos que já vi o Scrum Master é superior hierarquicamente na empresa que todos os integrantes do time, com raras exceções. Sendo assim, a escolha entre fazer parte do time ou ser o Scrum Master não tem muita margem para dúvida. Assumindo que a diferença financeira entre ser um membro sênior do time e ser o Scrum Master esteja na faixa de uns 30 a 40%, raros serão os indivíduos que irão decidir-se por continuar no time, se tiverem a opção de escolher. Certamente a grande maioria dos líderes técnicos é formada por profissionais que gostam muito de software, e renovam sempre seu interesse por novos desafios técnicos. Entretanto, todo mundo gosta e precisa de dinheiro, e isto obviamente pesa muito nas decisões.

Na teoria eu sou líder de equipe da Concrete, mas como atuo em tempo integral na Globo.com, sou parte de um time de Scrum. Isto quer dizer que provavelmente se eu estivesse alocado dentro da Concrete em um projeto com Scrum, eu seria o Scrum Master. Entretanto, na Globo.com eu faço parte de um time, e atuo bravamente nas trincheiras do desenvolvimento. Considerando essa dualidade da minha situação, eu penso bastante sobre estas questões do Scrum, e o que ele representa na carreira de um profissional de software.

Eu gosto muito de produzir software, e no horizonte que se apresenta à minha frente existem inúmeros desafios técnicos que eu ainda quero enfrentar. Estou longe de querer me afastar do contato técnico intenso que tenho a oportunidade de ter atualmente. Um exemplo que me vem à cabeça é o do Joshua Bloch. Eu nem sei qual é o processo de desenvolvimento que ele usa no Google e qual é o seu cargo oficial lá. Mas sei que ele é um dos caras mais sinistros que já trabalharam com Java e a experiência que ele acumulou em vários anos de desenvolvimento deve ser um ativo extremamente valioso para o Google. Tenho certeza que ele deve ganhar muito mais que a média dos gerentes de projeto de TI nos Estados Unidos. Ele é um fora de série, e é tratado como tal. Considerando um exemplo como o dele, será que vale mais para o Google deixá-lo intimamente ligado com desenvolvimento ou colocá-lo em funções talvez mais estratégicas? Será que os profissionais de ponta de tecnologia têm realmente espaço para continuar crescendo na área técnica ou é de fato inevitável uma mudança para papéis gerenciais em troca de mais responsabilidade e mais de L’Argent?

Considere um horizonte de vários projetos interessantes e desafiadores tecnicamente pela frente para você atuar. Suponha também que você vai poder escolher entre fazer parte do time que vai entregar estes produtos ou ser o Scrum Master dos projetos. E finalmente suponha que você vai ganhar exatamente a mesma coisa se escolher atuar no time ou atuar como Scrum Master. O que você escolhe?

Certamente eu posso e talvez mude de idéia no futuro, mas com o enorme tesão técnico que eu ainda tenho e com a quantidade enorme de desafios que eu ainda quero vencer “nas trincheiras”, pelo menos durante alguns anos eu faria parte do time. Tudo bem, eu ainda sou relativamente jovem (26 anos), ainda não sou casado (mas não falta muito) e não tenho filhos. Certamente a mudança das variáveis desta equação poderia mudar muito o meu ponto de vista. Mas por enquanto, considerando as suposições que eu falei, eu seria um orgulhoso combatente nas trincheiras, e continuaria me empenhando ao máximo para entregar software “do estado da arte”. Just my 2 cents😉

3 respostas para Scrum Master x Líder Técnico: nova faceta de um fenômeno recorrente

  1. Daniel disse:

    Bruno,

    Em http://www.joelonsoftware.com/articles/FogCreekMBA.html Joel faz uma consideração a respeito de colocar um desenvolvedor em uma posição de gerência. Estou reproduzindo um trecho aqui
    “Now, there’s nothing wrong with promoting a programmer to management, but management is a different job and requires different skills from programming. Many people who are excellent developers are lousy managers, and promoting someone out of a job that they love doing and are good at doing into a job that they hate and are not good at doesn’t make sense. We plan to make sure that programmers have explicit career paths that do not require them to shift into management just to get the next raise in salary level or benefits.”

  2. blpsilva disse:

    Pois é, eu gostaria muito de ver isto aplicado na prática aqui no Brasil. Acho que por aqui ainda temos muitos casos de ótimos desenvolvedores que acabam indo pra área gerencial para continuarem crescendo na carreira.

    Se isso for uma escolha do profissional, tudo certo. Mas o ideal é que haja espaço para crescimento na carreira técnica também. Desenvolvedores brilhantes que se transformam em gerentes ruins são um tremendo desperdício.

  3. Alan Kelon disse:

    Bruno,

    este é um tremendo problema cultural aqui no Brasil, onde o gerente iniciante ganha mais que qualquer técnico, mesmo os mais experientes e com mais tempo de casa. Até parece que a autoridade do gerente de projetos só é exercida com maior poder financeiro (maior salário).

    Abraço,
    Alan

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