Volta para casa… será mesmo??

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No dia 2 de Janeiro voltei de viagem para o Rio de Janeiro, onde moro. Eu costumava sempre ter uma sensação agradável ao voltar para casa após um período fora, por mais que eu tivesse gostado do local visitado. Infelizmente, desta vez foi um pouco diferente.Eu fiquei 3 dias em Buenos Aires e 3 dias em Santiago, e essas cidades me deixaram muito bem impressionado. Ambas são bastante organizadas, limpas, muito bem cuidadas. Nestes dias em que as visitei, nenhuma vez sequer vi qualquer papel ou lixo em geral jogado nas ruas. Muito pelo contrário, em Buenos Aires as ruas são perfumadas. Não sei exatamente como funciona o processo, mas parece que todas as lojas são perfumadas com um aroma semelhante ao daquelas borrachas de meninas, algo simples mas agradável.

Além da questão da cidade, as pessoas foram majoritariamente educadas e atenciosas. Ao caminhar pelas ruas eu não me sentia inseguro ou ameaçado. Com certeza também ocorrem crimes e outros problemas nestes lugares, mas nada parecido com o que eu estou acostumado a ver.

Pois bem, dia 2 de Janeiro de volta ao Rio. No caminho para casa vi em alguns sinais os malabaristas de bolinhas de tênis. Vi vários buracos pelas ruas, muitos deles na zona sul, onde teoricamente as coisas são mais “certinhas”. Dirigir em Botafogo por exemplo se assemelha a andar em um cavalo trotando. E isso menos de 6 meses após a realização do Pan 2007, onde foram gastos mais de 3 bilhões de reais, mais de 10 vezes o orçamento original do evento. Dizia-se que o Pan traria muitos benefícios para a cidade, mas não sei para o bolso de quem foram estes benefícios.

Dirigindo para levar minha noiva para casa, incontáveis foram os sacos plásticos, papéis, latas e outros tipos de lixo que encontrei no caminho. Em um ponto final de ônibus na rua do Shopping Leblon tivemos o prazer de ver um sujeito urinando sobre o pneu de um ônibus na frente de qualquer um que passasse por ali.

Ao ler os noticiários da cidade do período em que estive fora, fiquei sabendo dos tiros disparados em Copacabana no Reveillón, pessoa morta por bala perdida em Ipanema e do filho do médico Lídio Toledo que foi baleado no Alto da Boa Vista e está paraplégico.

Na edição de hoje (06/01/2008) do jornal “O Globo”, li uma reportagem sobre as piscinas da cidade que estão ficando bastante concorridas por causa da poluição das praias. Li outra reportagem falando do aumento expressivo dos roubos e furtos de carros em quase todas as regiões da cidade. Pouco antes de eu viajar, o destaque no noticiário carioca era a nova favela que cresce vigorosamente no morro Dois Irmãos no Leblon. Diariamente sobem caminhões e mais caminhões de material para a construção de mais “casas” nesta favela. A prefeitura sabe disso. O governo do estado (cujo governador é morador do Leblon) sabe disso. Esta área é de proteção ambiental, mas não temos notícia ainda de nenhuma repressão ou obstrução à construção de mais uma favela no Rio de Janeiro, que no Google Earth já pode ser visto como um imenso favelão.

Eu sou carioca e durante 19 dos meus 26 anos morei e moro na cidade. Sempre tive orgulho e satisfação em dizer que sou carioca, mas isto está mudando. Não tenho como me orgulhar de fazer parte de tamanha desordem, de conviver com tamanha falta de educação e descaso com a cidade. As pessoas sem educação são muito mais numerosas do que as educadas, e além disso se reproduzem com maior velocidade, então a perspectiva no horizonte não é cristalina…

Parafraseando o doutor Lídio Toledo: “Estão acabando com o Rio de Janeiro”. Pela primeira vez ao retornar de uma viagem, não me senti em casa. A minha insatisfação com todos esses problemas da cidade vem crescendo ao longo dos anos. As coisas boas da cidade, que atenuavam um pouco este sentimento, estão cada vez mais fracas, sem vigor.

Com todo este caos em que o Rio de Janeiro se encontra, continua firme e forte a inflação imobiliária da cidade. Atualmente não se encontra um apartamento de 3 quartos na zona sul com 100 metros quadrados por menos de 300 mil reais. Com a incrível saturação da cidade, os custos de vida elevam-se acima da inflação a cada ano. Imóveis em uma cidade que só piora a cada ano consegue ficar mais “valorizados” em um ritmo impressionante.

Eu sempre fui uma pessoa muito bem humorada, otimista, crente em um futuro melhor. Continuo assim, mas já há algum tempo estou convicto de que este futuro não será no Rio de Janeiro. Não me sinto mais em casa aqui. Me sinto ameaçado ao trafegar por diversos pontos da cidade. Me enoja a falta de educação de pessoas que jogam lixo no chão e depois reclamam quando ocorrem enchentes. Eu já me identifiquei bastante com o Rio de Janeiro e falava para todo mundo que sou “carioca da gema”. Mas não consigo mais me identificar com o que tenho vivenciado por aqui, neste caldeirão dos diabos. Não é neste ambiente que quero constituir uma família e criar meus filhos.

Meu amado Rio de Janeiro, nossa relação foi muito boa enquanto durou. Atualmente entretanto , já posso dizer que estou por aqui de passagem. Não sei ainda quando sairei da cidade, mas a dúvida já é apenas “quando” e não “se”. Provavelmente não será ainda num futuro breve, e sim daqui a alguns anos, mas me mudarei daqui para um novo lugar onde eu me sinta novamente em casa. Ainda é cedo para dizer, mas o que já pude conhecer de Curitiba me indica que lá eu me sentiria em casa e identificaria bastante. Além disso, por 1/3 do preço do Rio de Janeiro, compra-se um imóvel melhor por lá, que é uma cidade muito melhor cuidada.

Meu amado Rio de Janeiro, foi um prazer… mas este carioca da gema irá buscar uma nova e acolhedora casa onde se possa viver em paz. Espero que um milagre dos céus te restaure ao que um dia já foste!

2 respostas para Volta para casa… será mesmo??

  1. […] por trás dessa reestruturação da cidade foi muito interessante. Eu já falei anteriormente que estou muito desanimado com o Rio de Janeiro, e desejo morar em Curitiba no futuro de médio […]

  2. Ricardo disse:

    Infelizmente quando estamos mergulhados na bosta acostumamos com o cheiro. Mas basta tomar um ar na esquina que a percepção muda. Lendo este texto finalmente entendi como os cariocas conseguem viver em um lugar que tem este tipo de coisa.
    Estou precisando ir até o Rio, e acabei parando aqui ao procurar um caminho que não passe por tiroteio. Por exemplo, em São Paulo ou Curtiba há violência, mas é possível entrar na cidade sem medo de passar na linha de tiro de um fuzil como na Linha Vermelha.
    Espero que a minoria educada do Rio de Janeiro mude a postura passiva, pois a parcela mal educada, que inclui ricos, vão continuar levando a cidade com a barriga.

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