Este domingo dia 2 de dezembro de 2007 foi um dia sem dúvida marcante. Oficialmente começou a Tv Digital no Brasil, com o início das transmissões abertas digitais em São Paulo.A TV digital demorou bastante para começar no Brasil, pois muitos países já têm esta forma de transmissão como padrão há alguns anos. Entretanto, “nunca na história deste país” a máquina pública funcionou de forma eficiente e rápida para nada diferente de cobrar impostos, então a definição do padrão de TV digital brasileiro foi uma verdadeira novela e somente no final de 2007 saímos da estaca zero.
Uma das muitas coisas interessantes da TV digital para o pessoal de tecnologia é que ela abre mais uma oportunidade para a oferta de serviços. Embora muita coisa ainda esteja obscura e eu ainda não saiba bem que rumos tomaremos, os equipamentos de TV digital chamados set-top boxes suportarão a plataforma Java e com isso será possível desenvolver aplicações Java para oferta de serviços na TV digital.
Não tenho acompanhado muito de perto o que está sendo feito nesta área, mas me parece que ela ainda está bem devagar no Brasil. A TV digital permitirá uma interatividade e personalização infinitamente superiores ao que existe na TV analógica. Um componente fundamental para permitir isto é o canal de retorno, que nada mais é do que um canal de comunicação que permita que o espectador da TV digital envie de volta à transmissora as suas respostas, ações, interações de uma maneira geral.
Na TV analógica a interação que os espectadores têm é basicamente trocar de canal, e não há forma disponível em larga escala de enviar dados de volta para a transmissora. A NET possui um aparelho decodificador que pode ser ligado a uma linha telefônica para estabelecer este canal de retorno, e com isso um assinante pode fazer compras de filmes ou programas através do controle remoto, que através da linha telefônica será capaz de enviar informações à central da NET e concluir um processo de compra de conteúdo. Entretanto, esta alternativa é utilizada por muito poucas pessoas, o que nos permite dizer que a TV analógica não é interativa.
Com a TV digital, além da qualidade excepcional de transmissão que teremos, virá uma convergência muito maior de mídias. Enquanto atualmente um televisor e um computador são equipamentos distintos, muito em breve eles convergirão. Assistir TV no computador será apenas mais uma das opções existentes. O celular inicialmente era utilizado apenas para comunicações de voz analógicas e atualmente já acessa a internet, reproduz mp3, tira fotos de alta qualidade, filma e serve até como GPS. A próxima etapa na linha de evolução do “canivete suíço do mundo digital” será receber televisão de forma interativa. Reparem, mídias distintas como áudio analógico, áudio digital, fotos, vídeos, internet e agora televisão estarão convergindo em um único equipamento, e ele cabe no seu bolso.
Este assunto é bastante extenso e permite infinitas análises, mas uma característica importantíssima da TV digital é a mudança na forma de venda de conteúdo. O conteúdo será consumido muito mais sob demanda (lembram que mencionei isto no post do Kindle também?) e de forma personalizada do que numa forma padrão oferecida para todos os espectadores. Imaginem que de repente todas as antenas de televisão do Brasil fossem destruídas e que você não conseguisse mais assistir à TV aberta e nem à TV a cabo. Só restaria o acesso a conteúdo pela internet, pelos portais de internet e pelo You Tube por exemplo. Você teria que fazer buscas pelo conteúdo que deseja visualizar e possivelmente comprar. A oferta de conteúdo da TV digital parecerá muito mais com o You Tube do que com a TV analógica atual. Pensem em como isso modificará radicalmente a venda de conteúdo e propaganda.
Como falei, cada mudança de paradigma de tecnologia traz novas oportunidades e desafios e a TV digital é uma gigantesca mudança de paradigma. Isto trará mais uma oportunidade ao Brasil de tentar se firmar como um exportador de software, exportador de tecnologia. Já vimos o Brasil perder inúmeras oportunidades valiosas e se eternizar como o “país do futuro”, mas de um futuro que não chega nunca. Será que veremos mais uma vez este episódio se repetir e o Brasil ficar para trás e continuar dependendo vitalmente de recursos naturais não-renováveis em vez de vender produtos com alto valor agregado?
Existe um ditado oriental que diz que “Não há vento favorável para quem não sabe para onde quer ir”. E então Brasil, já sabes para onde queres ir? Será que desta vez teremos algum plano, estratégia ou algo parecido para sair do lugar indesejado onde nos encontramos? Ou será que eternizaremos a frase “Nunca na história deste país se soube aproveitar uma oportunidade de crescer e deixar de ser um país atrasado, miserável e ignorante!”
Parafraseando Carlos Drummond de Andrade: “E agora José, pra onde?”